Sempre que um jogo de grande porte é adaptado para um console portátil, é impossível não sentir aquele frio na espinha. Terá a desenvolvedora simplesmente encarregado uma softhouse obscura da adaptação do seu precioso título — o que, normalmente, funciona como uma espécie de Google Translator versão games? Ou pior, terá o título se transformado em alguma espécie de pacote cheio de minigames enfadonhos e vexantes? Enfim, as possibilidades de catástrofe são muitas.

Mas fique tranquilo. A versão portátil épica Dante’s Inferno, embora não introduza uma leitura renovada no PSP, também não faz feio. A bem da verdade, quem jogou as versões originais da adaptação pixelizada do inferno de Dante praticamente não vai sentir diferça; pelo menos em relação à trama, já que se trata da mesma maravilhosa e diabólica história.

Adaptação wannabe? Não no Inferno!

A conversão para o PSP leva a assinatura da A2M, mesma responsável por WET — enfim... — e atualmente a maior desenvolvedora independente do Canadá, que realmente fez um ótimo trabalho com os gráficos — a bem da verdade, trata-se provavelmente de um dos gráficos mais belos já exibidos no PSP. Entretanto, questões como jogabilidade e som provavelmente se beneficiariam com um tratamento um pouco mais apurado.

aprovado

Bem-vindo ao inferno!

Impossível não conceder pontos Dante’s Inferno pela sua história. Afinal, trata-se de uma adaptação do épico poema de Dante, A Divina Comédia, com sua visão naturalmente lírica (e um tanto doentia) do que seria o Inferno. Tudo bem, existe aqui de fato alguma “licença poética” que traduz toda a obra do poeta a um clima de ação hollywoodiana. Mas o clima geral permanece o mesmo, bem como a singular geografia descrita por Dante.

Mas o seu Dante dentro do jogo não é o mesmo Dante autor do poema. Uma escolha oportuna e feliz? Com certeza. De qualquer forma, aqui você é um combatente ferrenho, poderoso... e um tanto ingênuo, que durante a Terceira Cruzada, acaba por descobrir que os intentos da sagrada igreja não eram assim tão puros.

Dante acaba então sendo assassinado, e tem como castigo passar o resto da eternidade encarando as almas atormentadas que mandou para o Inferno. Bem, esse seria o castigo, caso o guerreiro — lembre-se, ele é inocente, não um fracote — não tivesse combatido o próprio ceifador para livrar-se do seu destino... e ainda ganhar uma foice de brinde.

Entretanto, como nem tudo são flores no Inferno, Dante acaba perdendo sua amada Beatrice — que aqui, inexplicavelmente, aparece sempre com um seio de fora — para o próprio Lúcifer, e a jornada aos círculos do inferno acaba mesmo sendo inevitável.

Esbanjamento gráfico

Sem meias-palavras: Dante’s Inferno é realmente um dos títulos mais belos jamais lançados para o PSP. Até por que, trata-se basicamente do mesmo design do título original para consoles de mesa! Ou seja, em vez das clássicas adaptações que mantém uma única câmera fixa, ou que apresentam gráficos execráveis, a versão para PSP conta com o mesmo clima cinematográfico dos seus irmãos maiores.

No que diz respeito à concepção original do título, realmente não há nada a contestar. Embora criaturas imensas e bestiais venham de uma herança bastante visível (GOW, é claro), Dante’s Inferno ganha pontos no seu lastro direto com a imaginação fértil de Dante Alighieri e sua visão particular do que seria o Inferno.

Então, tente não se espantar ao encontrar pelo caminho uma muralha feita de almas atormentadas, ou bebês demoníacos — crianças que não foram batizadas antes de morrer, segundo a Teologia clássica — armados com foices e doidos para cortar o seu pescoço.

Punir ou Absolver?

Seja piedoso... ou mande para o quinto dos 
infernos!O PSP conta com as mesmas ferramentas criativas para evolução de personagens que se podia encontrar nos títulos originais. Em Dante’s Inferno, você conta com duas barras, uma para os feitos sagrados, outra para os profanos; barras que são completadas, naturalmente, com atos sagrados ou profanos.

Em diversos momentos do jogo, você encontrará almas solitárias, perdidas em meio à culpa e à memória. Coisa pesada mesmo: trata-se de gente como Pontius Pilatos e Electra. Cabe a você então redimir as almas atormentadas... ou atravessá-las com uma foice e mandá-las diretamente para “o quinto dos infernos”.

Essa mesma mecânica funciona também com ataques normais (botão “R”), embora sem os mesmos efeitos cinematográficos. Por fim, ao completar as barras, você libera ataques sagrados e profanos em dois menus práticos em forma de árvore.

reprovado

Ah, se eu tivesse três braços!

É bem verdade que Dante’s Inferno para o PSP mantém basicamente a mesma jogabilidade do seus irmãos maiores. Mas ei! Isso não é necessariamente bom! Vale lembrar que a jogabilidade original do título foi desenvolvida para os controles dos consoles de mesa, que tem mais botões e — parece pouco, mas não é — um direcional analógico a mais.

Com ou sem um terceiro braço, lá vou eu!A limitação dos controles do PSP aparece, por exemplo, quando se utiliza o poderoso “Holy Dash”. Um golpe decisivo nos títulos originais, o ataque aqui tornou-se simplesmente dispensável, já que, para utilizá-lo eficazmente, você precisaria de três braços — já que o golpe aqui é disparado utilizando-se simultaneamente os direcionais digital e analógico do PSP.

O movimento básico de evasão também ficou mais complicado; em vez de utilizar o analógico esquerdo (já que não existe um aqui!), você terá que pressionar simultaneamente os botões “L” e “R”, o que é realmente bastante sem jeito.

A jogabilidade no PSP também sofre um pouco com a falta de precisão ou mesmo de detecção dos ataques. Basicamente, não se surpreenda se, principalmente ao utilizar um ataque pesado, a sua imensa foice simplesmente passe direto pelo inimigo, sem causar nenhum dano. Um sistema de mira automática também não seria ruim, evitando que a foice de Dante cortasse tantas vezes o ar.

Deslizes de gráfico e som

Com certeza não é sem algum pesar que alguém critica os gráficos ou o som de Dante’s Inferno no PSP. Afinal, a conversão manteve boa parte do elevado nível de qualidade dos títulos maiores. Mas, se de forma geral a apresentação do jogo é boa, é impossível deixar de notar alguns “lags” aqui e ali, ou mesmo os diversos sons repetitivos a volta e meia aparecem novamente. Entretanto, vale frisar: no geral, a apresentação é mesmo muito boa, são só alguns detalhes.

vale a pena?

Aí depende. Que o port para PSP ficou bastante decente, mantendo boa parte do clima do jogo original — e a sua história, de forma integral —, é bem verdade. Entretanto, como toda adaptação para portátil que tenta manter o feeling do jogo original, Dante’s Inferno não deixa de ser uma versão mais enxuta e econômica do jogo original.

Dessa forma, o jogo realmente vale a pena para quem: (a) não jogou o título original, ou (b) gostaria de contar com uma versão portátil de um ótimo título. Em outras palavras, embora seja um ótimo port, as chamas do Inferno de Dante certamente ainda ardem com mais força nas suas versões originais.