Ao observar a série Dissidia, é impossível não vê-la como um gigantesco fan service: reunir os principais personagens de todos os jogos da franquia Final Fantasy e colocá-los para trocar espadadas, magias e golpes mortais em grandes arenas. E, ainda, mostrar protagonistas, que antes eram reduzidos a poucos pixels em gerações passadas, em todo seu esplendor tridimensional.

Esta fórmula não poderia dar errado. E realmente não deu. Sendo assim, parecia óbvio o lançamento de uma sequência. Cerca de dois anos após o jogo original, chega ao mercado Dissidia 012: Duodecim Final Fantasy, com a tarefa de levar adiante a fórmula já amada pelos fãs e adicionar novos personagens à batalha.

Img_normalA história, assim como a do antecessor, conta mais um ciclo da guerra infinita entre os deuses Chaos e Cosmos, que convocam os principais guerreiros de diversos universos para lutar em seu favor. Desta vez, porém, a batalha acontece anteriormente aos combates do primeiro jogo da série. Ou seja, esta sequência também é um prequel, que revela mais sobre as motivações das duas divindades e os porquês da luta incessante.

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Novos combatentes

O primeiro Dissidia já apresentava um elenco de respeito, contemplando personagens centrais de todos os games da série lançados até então. Duodecim vai mais além, e inclui nove lutadores inéditos, que em sua maioria atendem a pedidos de fãs que não puderam ver seus protagonistas favoritos no primeiro game da série.

Img_normalÉ o caso de Tifa, de Final Fantasy VII, Laguna, da oitava edição da franquia de RPGs, e Yuna, de FF X. A eles se juntam Kain Highwind, de FFIV, Vaan, de XII, Prishe, de XI e Gilgamesh, summon do quinto game da série que aparece agora em forma jogável. Lightning, de Final Fantasy XIII, também aparece, bem como Feral Chaos, forma tangível do deus de mesmo nome, exclusivo de Dissidia.

Além disso, há também a presença de Aeris, apenas para aqueles que compraram a versão Prologus, espécie de demonstração do que estava por vir no segundo episódio da série. Além disso, um sistema de compartilhamento de saves permite que personagens com níveis elevados, utilizados pelos jogadores do primeiro game da franquia, possam ser exportados para a sequência.

Você não está sozinho

Em Duodecim, a Square Enix adicionou um sistema de assists ao combate. Mais ou menos como em Marvel vs. Capcom, é possível chamar um companheiro para a batalha, caso o jogador esteja em desvantagem. Ao contrário do crossover da Capcom, porém, esta função não pode ser ativada a bel prazer. Ela depende de uma barra na lateral da tela, que é preenchida a medida em que o personagem é atingido ou ataca com sucesso.

Desta forma, é possível fazer com que o oponente desvie sua atenção. Isso dá ao jogador um pouco de tempo para a utilização de magias de cura, rever sua estratégia ou simplesmente partir para o ataque, gerando combos maiores e aumentando o índice de Bravery.

Velhos hábitos não morrem

Dissidia Final Fantasy não se tratava apenas de pancadaria generalizada entre personagens consagrados. O primeiro game trouxe uma abordagem diferenciada, investindo em dois tipos de níveis para ataque. Com isso, a Square Enix modificou o ritmo das batalhas e criou um jogo com dinâmica mais complexa que uma simples troca de golpes.

Existem dois índices que o jogador deve levar em conta. O primeiro deles é o de Bravery (bravura em português), um total numérico que é compartilhado entre os dois oponentes. Ao atingir o inimigo com um ataque deste tipo, uma porção do total do desafiante é somada à do jogador e, com golpes sucessivos, aumenta cada vez mais. Mesmo que o BRV do adversário chegue a zero, a soma do atacante continua aumentando de acordo com seus ataques.

O total de Bravery indica a quantidade de dano que o oponente receberá no momento em que receber um HP Attack, que como o nome já diz, são ataques que efetivamente tiram energia. Desta forma, uma batalha pode ser encerrada com apenas um golpe, caso o jogador acumule pontos de BRV suficientes para acabar com o inimigo em um único ataque. Ao usuário cabe fazer a administração destes totais da forma como preferir.

Além dos números, o jogador também deve ficar atento aos cenários, que possuem armadilhas, obstáculos e diversas plataformas, elementos que também podem representar novas vantagens em batalha. Há também a barra de EX, que é preenchida à medida que o personagem sofre danos e pode ser utilizada para desferir ataques devastadores ou defesas especiais, capazes de mudar os rumos de um combate.

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Mas acima de tudo, Final Fantasy é um RPG. E, sendo assim, elementos clássicos do gênero não poderiam faltar. Pontos de experiência que garantem aumento nos níveis dos personagens, armas e equipamentos deixados por inimigos derrotados, dinheiro acumulado de batalha em batalha e diversos menus para personalização de armas e itens de defesa, todos estão lá da forma velha conhecida pelos fãs da Square.

A tradição da desenvolvedora também é sentida no estilo de combate dos protagonistas. Toda a mitologia da série Final Fantasy é transportada de forma fiel à Duodecim, por isso, não espere ver Cloud enfrentando Sephiroth com socos e pontapés. As peculiaridades dos personagens foram transportadas perfeitamente, incluindo o sistema de Paradigmas visto pela primeira vezem FFXIII. Sendo assim, ele é exclusivo de Lightning.

Gráficos que levam o PSP a seu limite

Além das tradições já citadas acima, a Square também carregou seu impecável estilo visual para o portátil da Sony. Isso se traduz em cenas de corte grandiosas e belíssimas, como já é tradição em todos os games da franquia Final Fantasy.

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Os gráficos de jogo também não deixam nada a desejar, e são justamente eles que carregam o poderio do PSP às últimas conseqüências. Esqueça os personagens pequenos, com poucos detalhes e muito serrilhados encontrados na maioria dos RPGs para o aparelho. Em Duodecim, os lutadores podem ser vistos perfeitamente, sem que seja preciso forçar os olhos.

Os cenários também são parte integrante do belo visual do título. As arenas possuem elementos destrutíveis e normalmente são compostas de diversas plataformas, o que proporciona grandes quedas e intensas batalhas aéreas. Além disso, permitem que os lutadores realizem movimentos especiais, como caminhar pelas paredes ou sobrevoar o inimigo utilizando raios de luz que se formam pouco acima das arenas.

Impressiona também a quantidade de elementos que surgem ao mesmo tempo durante os combates. Ao utilizar um personagem que ataca utilizando projéteis, como Laguna ou Onion Knight, é impossível não se impressionar com magias, disparos e luzes piscantes surgindo todas ao mesmo tempo, e seguindo em direções opostas. E o melhor de tudo: sem quedas perceptíveis na contagem de quadros por segundo.

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É expansão ou sequência?

Os pontos citados no item “Velhos hábitos não morrem” pode ser um deleite para os fãs de Dissidia ou da franquia Final Fantasy. Mas para muitos, e principalmente jogadores não iniciados nas duas franquias, Duodecim tem mais cara de expansão do primeiro jogo do que de continuação.

O novo game é praticamente o mesmo do anterior e, assim como seu antecessor, tem muito mais valor como fan service do que como grande novidade e adicional à biblioteca do PSP. A já citada adição do sistema de assists, bem como algumas novidades na interação dos personagens com o mapa não são suficientes para dar ares de ineditismo.

Img_normalEm sua maioria, as arenas de combate são exatamente as mesmas vistas no primeiro game da série. Da mesma forma, os personagens que retornam do primeiro Dissidia aparecem com as mesmas habilidades já conhecidas, sem a adição de novos ataques, magias ou outros poderes diferenciados.

Duodecim funcionaria muito bem como um DLC, conteúdo extra que poderia ser disponibilizado para download por preços mais baixos que os de um game completo, e expandiria a vida do primeiro jogo da série de forma considerável. Mas como jogo independente, lançado dois anos após o primeiro, Duodecim deixa muito a desejar quando o assunto é inovação.

Eu vim aqui só para te ver

O grande destaque da série Dissidia é colocar os personagens consagrados de Final Fantasy para lutar. Neste sentido, o Battle Mode cumpre exatamente o prometido, e é capaz de endoidar qualquer fã da saga. O problema é que este não é o modo principal do título.

No modo história, que acrescenta uma trama para justificar a união dos guerreiros e o início das batalhas, a trama é extremamente arrastada e entrega o principal mote do jogo em doses homeopáticas. Não é possível escolher o personagem preferido para iniciar o game, e o jogador pode acabar ficando preso a uma protagonista que não gosta ou conhece até que novas linhas narrativas sejam abertas.

Img_normalAlém disso, diversos capangas, chamados de Manikins, serão enfrentados em sucessão até que se possa encontrar um dos grandes vilões de Final Fantasy e partir para a batalha. Os inimigos comuns do game copiam aparência e o estilo de combate dos personagens centrais do jogo, mas são extremamente insossos e, na maioria das vezes, não oferecem desafio adequado.

Esses aspectos, aliados às cenas de corte desinteressantes que serem como interlúdio entre as batalhas, constituem em situações que chegam a beirar a monotonia. A não ser que você esteja completamente fissurado em Duodecim, ou ame de paixão os personagens de Final Fantasy, provavelmente vai sentir um desejo quase incontrolável de cancelar o modo história e partir logo para a pancadaria do Battle Mode.

Burocracia que desmotiva

Imagine-se na pele de um recém-chegado à franquia da Square. Você não tem opção a não ser usar Lightning, uma das principais adições ao elenco de personagens de Duodecim. Passa pelos inimigos iniciais sem dificuldade, mas perde algum HP antes do primeiro chefe. Com menos de metade da barra de energia, a você não é dada nem mesmo a possibilidade de reagir. Ao voltar, percebe que não é possível recuperar seus níveis de HP sem ter que passar novamente pelos combates já travados.

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É isso que acontece logo no início desta sequência, e pode ser motivo suficiente para fazer com que alguns jogadores menos pacientes abandonem o jogo. Não há possibilidade de escolher outro personagem a não ser Lightning e ela não possui magias curativas, nem é possível encontrar poções em meio aos itens deixados pelos inimigos mortos.

Para retomar os níveis máximos de energia, é preciso sair do gateway e retornar ao mapa geral do game. Isso, porém, faz com que o jogador tenha que enfrentar novamente todos os capangas evitando ao máximo sofrer dano, de forma a chegar ao boss com energia suficiente para lutar contra ele. Pense nisso como um modo Endless, de jogos como King of Fighters, mas que faz parte da experiência principal. E de forma extremamente frustrante, pois deixa o jogador sem opções para seguir em frente.

vale a pena?

Dissida 012: Duodecim Final Fantasy traz de volta todos os aspectos que tornaram seu antecessor um sucesso, adicionando personagens inéditos algumas características novas que expandem a experiência ainda mais. Aparentemente, a Square Enix parece não estar disposta a conquistar novos jogadores ou ampliar a fórmula, e criou uma sequência extremamente focada em um único público: os fãs de sua saga de RPGs.

Essa característica não é ruim, pelo contrário, Duodecim atinge em cheio o nicho ao qual foi destinado. A falta de inovações e o aspecto praticamente igual desta sequência, porém, deve decepcionar aqueles que não são apaixonados pela épica franquia, e não exerce apelo algum àqueles que não são iniciados na fantasia final da desenvolvedora.

O resultado é um ótimo jogo de luta adornado com características que adicionam novas camadas de estratégia e jogabilidade ao combate puro e simples. Mas não suficiente para fazê-lo caminhar ao lado de gigantes do gênero, como Street Fighter ou Mortal Kombat, ou servir como porta de entrada de novos jogadores ao universo mágico criado pela Square Enix.