Parece-me que tanto a indústria de jogos quanto os jogadores têm sérios problemas para se despedir — embora os motivos para isso possam ser diversos... Digo, um financeiro e o outro emocional. Mesmo quando um padrão já foi explorado à exaustão, e passou a criar barba. Mesmo quando todos os deuses do Olimpo já tiveram suas existências ceifadas. Mesmo quando milhares de headshots já foram disparados contra praticamente as mesmas cabeças. Deve haver uma razão para isso.

De fato, a palavra aqui parece ser apenas uma: padrão. Trata-se de um “caminho das pedras”, uma via de acesso fácil entre a produção de um jogo e a sua carteira. Também um apego inevitável. Quer dizer, por que eu deveria me arriscar com algo novo, se aquela minha velha e extensivamente explorada franquia sempre me proporcionou tantas alegrias? Bem, talvez porque ela, um dia, também foi o elemento estranho; ela também foi a “coisa nova”.

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Lembro-me de quando o primeiro Dead Space foi anunciado pela Electronic Arts. Mesmo me considerando um fã dedicado de Survival Horror, experimentei um mix de emoções naquele momento. Afinal, embora a ideia de matar monstros em situações desesperadoras sempre tenha me parecido uma oferta bastante atraente, já havia palcos consagrados para isso.

Por que eu deveria trocar o “conforto” das minhas incursões por Silent Hill ou por Racoon City em troca de uma nave espacial deletéria que ainda não contava com absolutamente nenhum legado? Quem são os inimigos? Quem é o meu personagem? Será que, a despeito de todo o alarde inicial, Dead Space não poderia ser apena mais um fracasso como tantos outros? Não seria melhor encarar o bom e velho Resident Evil, em vez de me lançar em algo novo?

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Ok, o resto é história. Dead Space se tornou um verdadeiro colosso, apresentando, simultaneamente, uma história de arrepiar os cabelos, um novo estilo de jogabilidade — com uma interface interna que impressionou muita gente na ocasião — e uma série de personagens com carisma inegável.

A lição de Dead Space

Sim, Dead Space havia conseguido um espaço entre o alto escalão de franquias reverenciadas por legiões de fãs, o que acabou por ocasionar um segundo título. Entretanto, será que algo realmente mudou... Ou simplesmente Dead Space se tornou mais um “lugar comum” que pretendemos revisitar por vários anos ainda? Será que a “lição” de Dead Space foi realmente aprendida?

Não, eu não pretendo ser injusto aqui. É bem verdade que uma parte considerável do público jogador vive em busca de algo genuinamente novo — digo, algo diferente de simplesmente apresentar o mesmo herói com uma roupa diferente! Trata-se, certamente, daquela seleta parcela de gamers que sempre olhará com curiosidade para algo inédito e promissor... Mesmo que ainda não exista nenhuma marca associada.

Por outro lado, também não é difícil encontrar produtoras/desenvolvedoras com disposição para deixar o conforto do dinheiro certo por abordagens mais arriscadas. Do contrário, inúmeros jogos excelentes provavelmente jamais veriam a luz do dia. Mas essa, infelizmente, não parece ser a regra.

Repetindo à exaustão — às vezes o fanatismo pode ser nocivo

É provável que eu precise me mudar para o Polo Norte após dizer isso, mas... Por que, exatamente, nós precisamos encontrar um novo Call of Duty e um novo Need for Speed nas prateleiras todo ano? Será mesmo que essas franquias são realmente capazes de se reinventar tão rápida e eficientemente, a ponto da periodicidade anual fazer sentido?

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Digo, será realmente tão diferente disparar um headshot em Modern Warfare 2 e em Modern Warfare 3? Ou, quem realmente poderá apontar diferenças decisivas entre um tiro de meta de FIFA 11 e FIFA 12? Ok, há algumas novidades, e é certo que qualquer fã sempre replicará o discurso publicitário da publicadora para defender a sua tão querida marca — que realmente pode ser boa, não me entenda mal.

Na verdade, esse padrão de comportamento não parece ser encontrado apenas em marcas, mas também em esquemas de jogabilidade. De fato, ao investigar diversos lançamento recentes, não será difícil que você encontre um, dois, três ou mais títulos virtualmente idênticos — embora vendidos em cores diferentes.

Enfim, sejam marcas, estilos ou protagonistas... Me parece que nós deveríamos aprender a dizer adeus com mais frequência. Por um lado, abre-se as portas para novas tendências, para possibilidades inéditas e surpreendentes. Por outro, evita-se que uma marca que tantos bons títulos trouxe seja explorada exaustivamente, cansando os jogadores e jogando o seu próprio legado no lixo virtual mais próximo.

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