Embora muita gente critique a longevidade da série, é inegável o fato de que Final Fantasy é uma das franquias mais significativas do mundo dos games. Ao longo de seus 13 episódios e inúmeros spin-offs, a Square Enix criou diferentes histórias e abordou vários temas, criando, assim, aventuras memoráveis.

Algumas delas, porém, se destacam mais do que as outras a ponto de se tornarem atemporais, como é o caso de FF IV. O título foi considerado um divisor de águas quando lançado para SNES, em 1991, por conta de seu enredo complexo e repleto de reviravoltas – algo até então inédito nas narrativas orientais. Ainda que Cecil não tenha a mesma legião de fãs que Cloud Strife, foi a partir de sua trama que a fantasia final se tornou um dos principais nomes no mundo dos RPGs.

Eis que, duas décadas depois, a desenvolvedora decide novamente apostar no clássico. Mesmo com o recente relançamento para Game Boy Advance e o remake para Nintendo DS, a Square fez de Final Fantasy IV: The Complete Collection a edição definitiva do título.

Trate-se de algo maior do que uma compilação remasterizada do game. Em vez de simplesmente trazer uma versão melhorada do original no portátil da Sony, o estúdio adicionou conteúdos extras para agradar os fãs que durante 20 anos aguardaram para conhecer o verdadeiro desfecho do enredo.

O grande destaque está exatamente nas continuações à trama tradicional. O jogo para PSP reconta a mesma história e traz duas sequências: a inédita Interlude e The After Years, lançado exclusivamente para celulares japoneses e que depois chegou à WiiWare.

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O velho clássico, novas histórias

Como dito, o grande trunfo de Final Fantasy IV: The Complete Collection é trazer três narrativas diferentes, em um único disco. Seja para quem jogou as outras versões ou para quem está conhecendo o universo do game somente agora, a experiência é recompensatória.

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A começar por FF IV original, que continua a encantar mesmo após tanto tempo desde seu lançamento. A história de redenção de Cecil Harvey e a busca pelos cristais místicos para impedir que o rei de Baron destrua o mundo ainda é uma das maiores epopeias criadas pela Square Enix. Todo o decorrer dos fatos, as amizades e as perdas justificam o fato de a trama ser considerada uma das melhores de toda a franquia.

No entanto, são as já citadas sequências que se destacam, pois conseguem dar continuidade aos acontecimentos sem descaracterizar tudo o que havia sido construído até então – algo que aconteceu com Final Fantasy X-2 e FF VII: Dirge of Cerberus. Interlude, por exemplo, é uma história original criada especialmente para este game e se passa um ano após a batalha contra Zemus, se assemelhando muito ao seu antecessor em vários aspectos.

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Já The After Years é o que vai além, já que nos leva 17 anos no futuro. Além da mudança de protagonista – que agora é Ceodore, filho de Cecil –, há também algumas inovações no sistema de combates, como a interferência da Lua em seus ataques e no dos inimigos. Porém, mesmo com as particularidades, as novas narrativas são igualmente divertidas e atraentes.

O interessante é que não é preciso concluir um jogo para iniciar outro. O menu inicial traz opções que permitem selecioná-los na ordem que desejar – mesmo que seja impossível retornar a essa tela sem voltar ao XMB. Sendo assim, caso você já seja familiarizado com FF IV, é possível ir direto para Interlude ou explorar os três mundos paralelamente.

Outro ponto bastante positivo nesta coletânea é o tempo necessário para finalizar todas as tramas. Por serem três RPGs – gênero tradicionalmente longo – reunidos, Final Fantasy IV: The Complete Collection oferece muitas horas de diversão. Para quem reclama que lançamentos atuais são curtos, eis uma boa forma de se entreter por vários dias seguidos.

Visual retrô, mas com uma pitada de inovação

Esqueça o potencial do PSP. Por mais que ele consiga quase se igualar ao PlayStation 2, um gráfico de ponta não é necessário para fazer de FF IV um ótimo game. Prova disso é o visual retrô adotado pela Square Enix nesta compilação.

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A aparência é exatamente a mesma utilizada no Super Nintendo, com a diferença de termos uma remasterização que tornou os sprites muito mais bonitos e trabalhados. Isso faz com que não haja pixels destacados como acontecia na geração 16-bits, mas algo simples e funcional – algo que deve agradar principalmente os fãs mais nostálgicos.

Também foram adicionados novos efeitos para muitas magias, principalmente aquelas com grande poder destrutivo. Explosões estão mais realistas – dentro do limite proposto – e tornam as batalhas mais intensas a partir de determinada parte do enredo. Os desenhos de alguns inimigos foram alterados, embora apenas quem conferiu alguma das edições anteriores consiga perceber essa mudança.

Entretanto, isso não significa que a qualidade das animações da Square deva ser ignorada. Ainda que em menor quantidade, as cenas em computação gráfica estão presentes e conseguem ser tão impressionantes quanto às vistas em lançamentos recentes, como Dissidia Duodecim. Por mais que se limitem às aberturas, é interessante ver Cecil, Ceodore e todos os demais personagens com uma aparência menos infantil.

Feito para os fãs

Se você jogou o original para SNES, saiba de uma coisa: Final Fantasy IV: The Complete Collection foi feito especialmente para você. A preocupação do estúdio em agradar esse público mais velho e saudosista é nítida não somente pelo visual adotado, mas também por uma série de outros recursos.

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A começar pela própria trilha sonora. Logo de início é possível selecionar o estilo adotado para o áudio: o com novos arranjos ou o clássico, ainda em MIDI. Por mais que a primeira esteja muito mais bonita, voltar a ouvir a polifonia do Super Nintendo é algo que vai fazer muito marmanjo querer voltar a ter 7 anos de idade.

A jogabilidade é outro elemento que mantém as raízes tradicionais. Não que alguém esperasse uma modificação nesse sentido, mas em tempos de RPGs de ação, rever o bom e velho turno é algo que vale a pena.

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Feito SÓ para os fãs

Vamos ser sinceros: a geração atual ainda se preocupa muito com gráficos. Não que isso seja algo inteiramente ruim, mas em casos como Final Fantasy IV: The Complete Collection, a preferência por grandes espetáculos na tela pode fazer com que muita gente se afaste do título.

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Como dito anteriormente, a proposta do game é exatamente reproduzir e melhorar o visual do SNES para reviver a experiência apresentada há duas décadas. Com isso, o principal público-alvo é exatamente os fãs que conheceram FF IV quando ele ainda se chamava Final Fantasy 2 – por causa da confusão de nomes criada nos anos 90. Porém, e os jogadores mais novos?

Se você é um dos usuários que tem a aparência dos personagens como prioridade em uma análise, saiba que existem poucos atrativos em The Complete Collection. Com exceção das animações, não há nada que leve o portátil ao máximo ou que consiga se igualar a títulos mais recentes. Se você esperava algo assim, prepare-se para desanimar.

O mesmo pode ser dito da jogabilidade. Os últimos RPGs lançados – incluindo os da própria Square Enix – têm abandonado gradativamente os turnos e adotado um estilo mais dinâmico e próximo da ação. Mesmo se tratando de um clássico, as batalhas menos frenéticas podem não empolgar jogadores que estão habituados a derrotar deuses gregos em tempo real ou com o esmagar de botões.

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Isso não significa que este Final Fantasy IV é ruim, muito pelo contrário. O jogo mantém as mesmas características que o eternizaram, mas a aposta do estúdio em manter características já tidas como ultrapassadas pode atrapalhar a receptividade e afastar os gamers mais novos.

Déjà vu

Por outro lado, FF IV: The Complete Collection também traz um sério problema também para os fãs: o que há realmente de novo? Com exceção de Interlude, não há nada de inédito que justifique mais uma versão do game.

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Trata-se do mesmo visual e história vistos no SNES e no Game Boy Advance. Ainda que tenhamos um melhor polimento nos sprites e nos cenários, pouca coisa mudou. Situação semelhante é a de The After Years, que certamente já foi conferido por quem é realmente apaixonado pela saga de Cecil. Sendo assim, há pouco conteúdo exclusivo que faça valer a pena a nova visita ao reino de Baron.

Além disso, não se trata de uma aventura há tempos esquecida. Como dito anteriormente, houve um relançamento para GBA, em 2005, e um remake para Nintendo DS três anos depois, o que deixa a trama ainda muito recente na memória (e no bolso) dos gamers. Para quem comprou alguma delas, não faz sentido pagar para ter o mesmo jogo.

vale a pena?

Final Fantasy IV ainda é um dos grandes clássicos dos RPGs. No entanto, isso não quer dizer que a Square Enix deva relançar novas versões com tanta frequência. Por mais que The Complete Collection reúna outros jogos relacionados ao enredo – incluindo um inédito –, quem jogou as edições anteriores dificilmente irá se empolgar em comprar o mesmo game uma segunda (ou terceira) vez.

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No fim das contas, a impressão que temos é que falta alguma orientação de marketing para a Square Enix. Este game poderia ser uma ótima aposta para atrair fãs saudosistas, mas o mercado foi saturado de Cecil nos últimos anos e fez com que a coleção completa perca o brilho merecido. Se tivesse sido lançado antes ou até mesmo depois, certamente seria um título imperdível para qualquer apaixonado por RPGs.

O resultado final dessa superexposição ao herói é nítido: quem jogou as demais versões certamente vai achar a aventura repetitiva e vai se cansar em pouco tempo, já que há poucas inovações ou algo que realmente justifiquem um retorno àquele mundo. Se for para insistir em remakes, que o estúdio ouça o apelo do público e aposte em Final Fantasy VII de uma vez.