Westeros vive um período de paz. Quinze anos depois da rebelião que levou a Casa Baratheon ao Trono de Ferro e extinguiu a Casa Targaryen, os Sete Reinos vivem em uma aparente tranquilidade. No entanto, enquanto as espadas dos nobres permanecem embainhadas, a situação se mostra bastante crítica para o restante da população.

Na Muralha, a falta de patrulheiros preocupa, principalmente com os selvagens atacando com mais frequência. Como se não bastasse, o contingente em Castelo Negro e nas demais fortalezas que acompanham a gigantesca parede de gelo no extremo norte diminui consideravelmente a cada fuga, o que torna tudo ainda mais preocupante.

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Ao Sul, o povo das cidades morre de fome em muitos locais, criando um clima de descontentamento generalizado. Enquanto os membros das grandes Casas aproveitam os dias de sol do Longo Verão e a estabilidade que Robert Baratheon trouxe ao seu reinado, a população ainda sofre com as cicatrizes da batalha que fez Westeros sangrar.

É nesse contexto turbulento que você mergulha em Game of Thrones. Pegando embalo no sucesso da série de televisão e nos livros, a Cyanide trouxe um RPG que coloca o jogador dentro da guerra dos tronos que conquistou milhões de fãs no mundo inteiro e mostra que não é tão simples tomar uma decisão em um reino em que todas as suas ações são medidas e as consequências podem ser fatais.

O inverno está chegando. Você está preparado?

aprovado

Muito além do Mar Estreito

Um dos grandes méritos das "Crônicas de Gelo e Fogo" foi criar um universo extenso e muito bem detalhado, prendendo o leitor — e o espectador — em sua trama complexa e repleta de reviravoltas. Para os fãs da saga, Game of Thrones se mostra como uma ótima surpresa não apenas por nos deixar viver nesse mundo, mas por expandir a narrativa.

Logo de início, somos apresentados a dois personagens criados especialmente para o jogo. O primeiro é Mors Westford, um patrulheiro da Muralha que lutou por Robert Baratheon em sua rebelião, mesmo indo contra seu suserano. Por conta dessa traição, ele foi condenado a vestir o negro até o fim de sua vida — algo que ele faz com muito orgulho, tornando-se um dos principais guerreiros nas gélidas terras do Norte.

Em contrapartida, temos Alester Sarwyck, herdeiro de Riverspring que abandonou sua cidade há 15 anos para se exilar em Braavos, onde aprendeu a cultuar o deus do fogo, R’hllor. Depois de muito tempo, ele retorna à sua terra natal para reestabelecer a ordem, mesmo que isso signifique ir contra a crença de todo um povo.

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Apesar de nunca terem sido citados nos livros, Mors e Alester são o grande destaque de Game of Thrones. Como dito, eles apresentam um novo ponto de vista à dança política que acontece nos Sete Reinos, indo além daquilo que as outras mídias já contaram. Para quem já acompanha a saga, trata-se de uma forma de enriquecer aquele universo.

Prova disso é que temos algumas dúvidas antigas sendo finalmente explicadas. O choque religioso entre Alester e aqueles que creem nos Sete, assim como algumas tradições das Cidades Livres, são pontos inéditos que aprofundam a experiência de quem mergulha neste RPG.

Isso também afeta a jogabilidade. Mors é um troca-peles, uma pessoa capaz de entrar na mente de animais e controlá-los por um período de tempo. Embora isso ainda não tenha sido explicado na série, você pode ter um primeiro contato com esse tipo de gente e controlar o cachorro do patrulheiro para seguir trilhas de fugitivos ou utilizá-lo durante os combates.

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Isso mostra que a produtora não se preocupou em apenas recriar aquilo que a HBO já mostrou — apesar de alguns personagens manterem a fisionomia e as vozes dos atores da série —, mas de ir direto aos livros e usá-los como ponto de partida para criar uma nova história. Seja você um fã enlouquecido das Crônicas ou apenas alguém que acompanha os episódios na TV, a trama é algo que merece ser conferido e vasculhado em todos os seus detalhes.

Ouça-me rugir

Mas e para quem não é fã da série, o que o jogo traz de bom? Apesar de serem poucas as coisas que realmente se aproveitem em Game of Thrones, o sistema de criação de personagem é algo que deve ser citado.

Apesar de não haver uma ferramenta de personalização de visual, você tem liberdade para moldar as características psicológicas dos protagonistas, assim como seu estilo de combate e seus atributos.

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O lado mental é o que mais chama a atenção, pois faz com que o título se assemelhe muito aos velhos RPGs de mesa, em que você tinha que definir vantagens e desvantagens para seu herói, o que o deixa muito mais humano. Aqui, as coisas funcionam de maneira semelhante.

Logo de início, você deve definir quais os pontos fortes e em que aspectos o guerreiro falha. Ele pode ser, por exemplo, um ótimo líder — o que concede bônus de ataque aos aliados —, mas sofrer de gota e ter sua velocidade reduzida por causa das fortes dores.

As decisões morais também têm um peso muito grande. Se você sempre imaginou como seria ser um senhor dos Sete Reinos, chegou a hora de testar suas reações diante de situações críticas. Ser alguém cruel e executar todos aqueles que questionam sua autoridade ou alguém que ouve o apelo até do mais humilde cidadão? A escolha é sua, assim como as consequências.

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Mais feio que um gigante do Norte

Se, por um lado, a trama empolga, o aspecto visual de Game of Thrones é aquele soco no estômago. Por mais que o jogo tenha um enredo bom o suficiente para animar os fãs, a parte gráfica é tão feia que você logo perde qualquer vontade de continuar jogando.

Não se trata apenas de gráficos simples, mas de algo mal feito mesmo. Mesmo com os detalhes  mínimos e a falta de textura no cenário, o que realmente incomoda é a péssima modelagem, assim como a animação horrível.

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Como há muito diálogo, temos câmeras próximas dos personagens em diversos momentos, o que deixa bem clara a falta de cuidado na hora de dar vida aos habitantes de Westeros. Polígonos para tudo quanto é lado, construções bizarras para o corpo humano e gestos que não parecem nem um pouco naturais são apenas alguns exemplos.

A coisa não melhora nem mesmo nos combates. A movimentação é travada e completamente mecânica. Nas lutas contra grupos maiores, os inimigos usam os mesmos golpes de maneira sincronizada, criando uma espécie de dança patética.

Para finalizar o show de horrores, temos um grande espetáculo de defeitos visuais, como as paredes e portas intangíveis e o screen tearing nas cenas um pouco mais rápidas.

Todos os homens devem morrer — de tédio

Ok, você é uma pessoa que não se importa para os gráficos e, mesmo o jogo sendo feio, o que importa é a diversão. Mas sinto lhe informar que esse aspecto também está em falta em Game of Thrones. Por mais que tenhamos uma ótima ambientação e uma criação de personagem interessante e bem trabalhada, o sistema de combate não empolga.

Como dito anteriormente, temos uma movimentação mal feita que dá às batalhas um ar mecânico e pouco natural. Isso faz com que não haja empolgação em nenhum momento, mesmo naqueles em que deveria existir. Em determinado ponto da trama, Mors é cercado por selvagens em uma cena que deveria expressar o mínimo de emoção, mas a única sensação que temos é o desgosto e a vontade de morrer em frente ao PC.

vale a pena?

Com um universo tão rico, é uma pena que Game of Thrones seja apenas mais um jogo que não consegue aproveitar o material que tem e traz algo mal feito e decepcionante. Por mais que a produtora tenha conseguido criar uma ambientação interessante e se aprofundar em pontos que nem mesmo os livros conseguiram aproveitar, todo o resto é descartável.

Um game precisa de uma boa história? Com certeza, mas isso não é o suficiente para sustentar um título, principalmente quando todo o restante é inconsistente. O que é uma pena, já que o game tinha um enorme potencial para ser tão épico quanto os livros e a série, mas não passou de mais uma adaptação frustrante.