Ainda que no Brasil ela não possua a mesma representatividade, a série Monster Hunter é um dos maiores fenômenos atuais no mundo dos games. Para ter uma ideia, o lançamento de um novo jogo é quase como um feriado no Japão, conseguindo ser mais esperado que o de muitas séries exclusivas do PlayStation 3 e Xbox 360.

A fórmula de sucesso desenvolvida pela Capcom é simples. O jogador cria um personagem com equipamentos medianos, mas úteis o suficiente para iniciar uma caçada a monstros que liberam itens necessários para aprimorar suas armas. Com isso, você fica mais forte e consegue enfrentar criaturas que liberam novos objetos, criando um ciclo infinito (e viciante) baseado na vontade de o usuário ser forte.

Essa fama, é claro, não passaria despercebida diante dos olhos das demais produtoras. Com o êxito obtido em Monster Hunter, vários estúdios desenvolveram seus próprios jogos a partir da premissa original. Com uma ou outra variação, a estrutura básica é sempre a mesma.

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A Namco Bandai foi uma delas. No entanto, ela se preocupou muito mais em oferecer uma experiência diferenciada do que simplesmente remontar o game da Capcom. Ainda que muita gente considere Gods Eater Burst uma cópia oportunista, ele traz vários elementos que tentam corrigir algumas das falhas do rival, além de criar recursos inéditos.

Por outro lado, é impossível não fazer comparações entre os dois jogos. Como há várias similaridades, o jogador que conhece as duas franquias certamente irá se posicionar positiva ou negativamente diante das novidades, assim como perceber aquilo que foi claramente reaproveitado.

O reino do amanhã

A principal adição da Namco a Gods Eater Burst é a construção de uma história que justifica toda a jogabilidade. Se a caçada em Monster Hunter acontecia porque era uma espécie de tradição tribal, aqui a situação é um pouco mais complexa.

No final do século XXI, o mundo como conhecemos foi praticamente dizimado com o surgimento de criaturas chamadas Aragami. Com diferentes formas e habilidades, esses monstros se transformaram nos maiores inimigos da raça humana. Por conta dessa nova ameaça, a população teve de se reorganizar e passou a viver dentro de pequenas fortalezas com uma tecnologia que impede a entrada de inimigos.

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É nesse contexto que conhecemos a Fenrir, uma espécie de corporação especialista na eliminação de Aragamis. Para isso, ela utiliza os chamados God Eater, caçadores equipados com armas gigantescas feitas a partir das células desses seres. Com isso, a instituição realiza várias operações em cidades abandonadas na tentativa de salvar o planeta.

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Pano de fundo

Img_normalO fato é que a presença de um enredo faz muita diferença na jogabilidade. Se você tentou jogar qualquer Monster Hunter, mas não conseguiu se empolgar pela falta de uma justificativa para sua caçada, em Gods Eater Burst, a trama serve tanto para explicar o período apresentado quanto para prender o jogador por mais tempo em frente ao PSP.

O interessante é que a Namco se preocupou em inserir esse elemento ao mesmo tempo em que mantém a fórmula intacta. O sistema de missões permanece, ou seja, você é enviado a um local e deve cumprir o objetivo proposto. A diferença é que muitas delas possuem pequenas cenas de introdução e conclusão que, quando reunidas, montam a história central do game.

Por mais que a evolução inicial da narrativa seja bastante lenta, basta um pouco de empenho para que tudo fique bem interessante. As breves animações fazem com que o usuário se questione sobre o que realmente está acontecendo no mundo, e as diversas reviravoltas e acontecimentos praticamente obrigam o usuário a seguir adiante.

Pode parecer apenas um detalhe, mas é algo que faz muita diferença. A simples possibilidade de acompanharmos alguns fatos dá a sensação de avanço, algo fundamental para instigar o gamer a continuar na aventura. Porém, como será dito posteriormente, a falta de empatia pode prejudicar todo o esforço da Namco.

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Você não é obrigado a acompanhar o enredo sempre. Ao selecionar uma fase, um pequeno selo é exibido para indicar se ela está ou não relacionada ao contexto geral. A grande maioria possui o botão “Free”, o qual significa que sua única preocupação será matar monstros e coletar itens – algo perfeito para ser feito em fila de bancos ou enquanto espera o tempo passar.

Alimentando sua arma

Outro grande ponto de Gods Eater Burst é o dinamismo dos combates. Não apenas por conta de sua jogabilidade, mas pelas possibilidades que sua própria arma oferece. Ao contrário de vários outros jogos do gênero, você possui um leque maior de possibilidades para usar nas batalhas sem ter de voltar à cidade central.

Ao iniciar sua carreira como caçador, o jogador recebe uma God Arc. A arma é a única forma de eliminar um Aragami pelo simples fato de ela também ser feita com células do monstro. Sendo assim, ela possui características bem diferenciadas em relação aos equipamentos que estamos acostumados a ver.

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A mais útil e prática delas é sua versatilidade. Além de servir como espada, a gigantesca lâmina também pode se transformar em um canhão ou em um escudo. O melhor de tudo é que essa mudança pode ser feita a qualquer momento na luta, dependendo da estratégia adotada.

A modificação é rápida e simples, bastando apertar o botão R. Como cada modo possui pontos positivos e negativos, cabe ao jogador decidir qual formato utilizar. Ataques físicos, por exemplo, são mais fortes e causam um dano muito expressivo nas criaturas, mas são pesados e fazem com que os golpes de seu personagem fiquem mais lentos. Já os tiros permitem ataques à longa distância, mesmo com uma potência menor.

Além disso, optar pelo estilo pistola também permite que você utilize diferentes tipos de munições. Ao segurar o botão quadrado ou triângulo, um pequeno menu surge em sua tela para que você selecione o elemento dos tiros e sua intensidade.

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Por fim, há a habilidade mais útil e interessante da God Arc: o canibalismo. Como dito anteriormente, ela é feita de células de Aragami, o que significa que ela ainda é um pedaço de monstro em suas mãos. Sendo assim, é possível usá-la para devorar partes dos inimigos e adquirir novos poderes.

Ao fazer isso, seu personagem entra no modo Burst que, além de deixá-lo mais rápido, também permite o uso de ataques únicos e avassaladores. O problema é que alimentar sua espada não é algo tão fácil pelo simples fato de as criaturas não permitirem a aproximação necessária. O aconselhado é golpeá-las até que elas fiquem atordoadas. O breve momento em que elas caem no chão pode ser sua única oportunidade.

Ataque focado e dinâmico

Uma das principais críticas feitas a Monster Hunter é a inexistência de um sistema de mira, o que dificulta a precisão de seus movimentos. Como é comum você errar seu ataque por conta do movimento dos monstros, é preciso uma boa dose de paciência até pegar o jeito para melhorar seu índice de acertos.

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Já em Gods Eater Burst, a adição de uma mira fixa permite que você concentre todos os seus esforços em uma única criatura e não perca tempo tentando golpear o ar. Isso também ajuda na localização, já que essa trava faz com que a câmera passe a acompanhar os movimentos daquele Aragami – algo muito útil na hora de derrotar monstros mais fortes, em que é preciso atacar e tomar distância.

No entanto, determinar um alvo é exclusividade do modo espada da God Arc. Ao transformar seu equipamento em canhão, um sinal surge no centro da tela, que serve como referencial para seus tiros. Com isso, basta movimentá-lo com o D-Pad e disparar na direção desejada.

Outro ponto são os menus. Ainda que seja um game de ação em tempo real, existem várias telas a serem navegadas para executar algumas funções. Contudo, ao contrário do que acontece em vários outros jogos, nada para enquanto você se decide. Quer selecionar um item para recuperar sua energia? Faça isso enquanto foge de um inimigo. Deseja relembrar é qual seu objetivo? Leia um resumo enquanto seus amigos lutam para sobreviver.

Você em um anime

Uma das principais características de jogos de caçada é o universo de personalização disponível. Como não poderia deixar de ser, Gods Eater Burst oferece várias possibilidades para que você crie seu personagem da maneira que desejar.

O curioso é que não há como fazê-lo como uma réplica virtual sua. A Namco optou por adotar um estilo mais próximo dos animes japoneses, o que faz com que tenhamos traços bem parecidos com o de desenhos animados. Sendo assim, os tipos de cabelos e de rosto são bem próximos daqueles vistos em séries como Naruto e Dragon Ball Z.

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A temática oriental vai além dos grandes olhos dos heróis. As próprias armas gigantescas e o comportamento exagerado de cada indivíduo são típicos dos animes, o que é bem divertido para quem aprecia essa arte. Se você sempre quis ser um herói de mangá, eis sua chance.

Outro destaque são monstros, cujo visual é de tirar o fôlego. Por termos uma ambientação futurista, a equipe de design teve mais liberdade para criar os Aragamis das mais diferentes formas, sempre repletos de cores e detalhes. Mesmo aqueles seres impossíveis de serem derrotados conseguem arrancar elogios – e uma boa dose de sua energia.

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Ainda repetitivo

Se a proposta da Namco era criar uma história envolvente que conseguisse tornar o avanço de missões algo prazeroso, infelizmente não é o que vemos na prática. Mesmo com uma trama interessante, Gods Eater Burst sofre com a repetição sem fim de praticamente todos os elementos existentes.

A sensação que temos é que o enredo é apenas uma desculpa para que você realize mais tarefas. Independente do fato de existir uma animação ou não antes de sua entrada na fase, o objetivo é exatamente o mesmo. Não há um diferencial ou outro elemento que consiga realmente justificar o porquê das cenas. A mudança mais significativa é a disposição dos NPCs em Fenrir.

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Além disso, o contexto sugerido pela narrativa não é sentido em nenhum momento. Estamos em um mundo pós-apocalíptico e vários amigos seus estão morrendo. Então por que isso não é percebido nos diálogos ou na própria fortaleza humana? Tudo é tão calmo e tranquilo que mais parece uma escola do que uma resistência.

Nas lutas, isso não é diferente. São pouquíssimos cenários disponíveis e a variedade de Aragamis é bem baixa. Se a ideia de adicionar um enredo é fazer com que a sensação de progressão fique mais acentuada, a baixa quantidade de mapas e inimigos vai na contramão e faz parecer que não saímos do mesmo lugar.

Coleção de problemas

Gods Eater Burst não é um jogo feio. Como dito, anteriormente, o design das armas e dos monstros consegue ser muito bonito. No entanto, nada disso importa se a quantidade de problemas gráficos tem maior destaque.

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Como são poucos mapas disponíveis para exploração, fica fácil perceber as diversas falhas existentes. Elementos chapados são os mais comuns. O que deveria ser uma poça d’água, por exemplo, se mostra apenas como um círculo de cor diferente no chão. Já as escadas tentam recriar degraus com riscos em uma superfície lisa.

Até mesmo as animações conseguem desanimar. Tem algo pior do que ver alguém sem a menor expressão facial? Um dos habitantes de Fenrir, por exemplo, simplesmente passa o jogo inteiro de olhos fechados, como se estivesse sorrindo. O mundo não estava acabando? Não tem monstros em seu quintal? Então por que diabos ele está sempre feliz?

Pior é quando, durante um diálogo, a voz sai e a boca permanece fechada. Sabe aquelas dublagens de garagem que você encontra no YouTube? É praticamente impossível prestar atenção na história quando há falhas tão grandes saltando da tela.

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Por fim, o mais bizarro de todos os problemas de Gods Eater Burst: os NPCs fantasmas. Lembra-se das aulas de Física em que seu professor dizia que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço? Pois a Namco se esqueceu disso, já que você pode atravessar outro personagem como se não houvesse ninguém ali.

A sempre problemática câmera

Embora a existência de uma mira fixa ajude muito na hora de acertar seu alvo, ela não consegue ser o suficiente para corrigir a sempre problemática câmera do PSP. Como dito anteriormente, é possível focar em apenas um inimigo e fazer com que a tela acompanhe seus movimentos. Porém, basta um pouco mais de ação para você ficar completamente perdido no que acontece ao seu redor.

Isso porque a maioria dos Aragamis vai de um lado a outro do cenário em movimentos muito rápidos e sempre acabam fora de seu campo de visão. O resultado é que o jogo tenta se ajustar a essa mudança e não consegue, fazendo com que você fique encurralado ou andando em círculos – e seja morto logo em seguida.

vale a pena?

Gods Eater Burst era um jogo que tinha muito potencial. Por mais que fosse uma variação da fórmula de Monster Hunter, o game dava brechas para criar um mundo tão rico quanto o criado pela Capcom e uma jogabilidade igualmente divertida. No entanto, a prática nos mostra que somente adicionar alguns elementos a mais não é o suficiente para sustentar um título.

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O enredo é realmente muito bom. Mesmo com o início morno e pouco empolgante, aqueles que forem mais persistentes vão perceber que existem vários elementos interessantes na história. O problema é que a Namco não conseguiu apresentar essa narrativa de forma convincente e a transformou em uma simples entrada para as missões.

A grande sensação que temos é que o título tinha ainda muito a oferecer, mas a falta de cuidado da desenvolvedora prejudicou seriamente o resultado final. A pouca variedade de cenários e monstros apenas acentua a enorme repetição existente. É como se estivesse faltando algo e a solução encontrada fosse preencher com mais do mesmo.