Em um cenário devastado pela guerra, você trilha o seu caminho por entre escombros e nuvens de poeira. Eventualmente, criaturas alienígenas naturalmente hostis eclodem da terra, pesadamente armadas e pouco dispostas a dialogar. Ainda bem que você possui um arsenal igualmente pesado — contando, entre outros itens, uma “metranca” adornada por objeto cortante. E, então? Gears of War? Não, tente novamente.

Com a enxurrada de títulos que atualmente lota o horizonte da indústria de games, é natural esperar alguma repetição. Afinal, inventar a roda nem sempre é a melhor saída. O problema é quando algo sai como cópia escarrada de um material preexistente. No caso de Inversion, é realmente difícil atravessar a história clichê que embala um herói genérico sem reconhecer uma tentativa débil de aproveitar o caminho aberto à foice pelas desventuras de Marcus Fenix.

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Mas é verdade que, desde o início, o carro-chefe da desenvolvedora Saber Interactive jamais foi qualquer pretensa inovação de mecânicas TPS (tiro em terceira pessoa) ou um enredo original. A própria capa do jogo faz questão de evidenciar: o ponto alto aqui deveria ser a possibilidade razoavelmente original de brincar com as leis da gravidade, alterando canários e fazendo com que inimigos estupefatos flutuem ou grudem no chão — invariavelmente tornando-se alvos mais fáceis.

O problema aqui é semelhante àquele enfrentado por diversos títulos cuja existência se justifica por uma demonstração técnica. Assim como Fractureexistia unicamente porque alguém precisava de um jogo para mostrar a inovadora ideia de fazer morros e buracos com uma arma em punho, Inversion serve como simples pedestal para as mecânicas gravitacionais da Saber.

E a coisa fica ainda mais séria quando se coloca em perspectiva a dita “inovação” de arremessar vilões para o ar ou para a terra. Afinal, “trocando em miúdos”, Inversion não parece fazer nada muito diferente do que Mass Effect, Dead Space e tantos outros já fizeram — pelo menos em grande parte dos seus detalhes.

Isso posto, há que se reconhecer, entretanto: há alguns elementos aqui que mostram uma boa dose de potencial a explorar. Além disso, é provável que o modo multiplayer garanta diversão por algumas horas. Vamos aos detalhes.

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Mecânicas (semi) originais

Para convencê-lo a levar para casa uma cópia de Inversion, a desenvolvedora Saber Interactive apostou em uma campanha de foco único. Algo do tipo: “Há uma história, há algumas mecânicas apropriadas etc. — mas você viu a possibilidade de alterar as leis gravitacionais?!”.

De fato, embora não se possa dizer que tudo aqui funcione como deveria (ou como a propaganda fez questão de veicular inicialmente), fato é que, sim, há alguns pontos em que a proposta do “altere as leis da gravidade de acordo com a sua vontade” realmente garante alguns pontos extras para Inversion.

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Embora a sua arma futurística para aumentar e diminuir a gravidade não forneça possibilidades lá muito originais para o tiroteio em terceira pessoa do game, a coisa realmente fica singular quando se passa aos cenários — teto vira chão, parede vira teto e por aí vai. Enfim, divertido e, de certa forma, realmente surpreendente.

Um multiplayer razoável

Verdade seja dita: inversion não traz propriamente uma experiência multiplayer balanceada, do tipo que o colocaria em pé de igualdade com colossos da jogabilidade online. Entretanto, a exploração de cenários desprovidos de gravidade e a ampla profusão de modos de jogo (team deathmatch, capture the flag etc.) realmente consegue convencê-lo a gastar “mais algum tempo”.

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Boa dose de humor involuntário

Aqui você encara o policial Daves Russel que, auxiliado pelo parceiro Leo Delgado, parte para salvar o que restou da sua família — no caso, a filha — de uma invasão de alienígenas... Que bem poderia ser o que restou do corpo de figurantes da trilogia cinematográfica Mad Max. São diálogos genéricos, rostos genéricos e piadas genéricas... De fato, é tudo tão incrivelmente genérico, que chega a ter sua graça (realmente). Vale como humor involuntário!

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O outro lado da história...

Naturalmente, se “humo involuntário” não é suficiente para fazê-lo tentar a sorte com mais um jogo de tiro, então você está em maus lençóis. Por quê? Ironicamente, valem os mesmo motivos do último ponto “positivo” — é simplesmente impossível levar a sério o que acontece em Inversion ou mesmo sentir qualquer tipo de empatia pela aventura desesperada e cheia de pontas soltas de Daves Russel.

Inovador... Mas também inútil

É inegável que Inversion traz consigo um belo potencial a ser explorado. O problema é que isso realmente não aconteceu aqui. Na verdade, assim que começar a utilizar a arma-alienígena-maravilhosa capaz de alterar a gravidade no game... Você simplesmente perceberá que não há o menor sentido em fazer isso.

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Quer dizer, eis as suas possibilidades aqui: erguer oponentes (para tirá-los de suas coberturas), fazê-los grudar no chão e, finalmente, arremessar escombros contra os curiosos alienígenas balbuciantes. Bem, as duas primeiras são potencialmente inúteis... E a última pode mesmo acabar matando o seu personagem em pouco tempo — já que, no momento em que utilizá-la, você estará de “peito aberto” para o inimigo.

O seu “bom” amigo, a I.A.

Jogar o modo cooperativo de Inversion pode ser divertido, é claro. Entretanto, caso o seu bom amigo, Leo Delgado, seja controlado pela I.A. (inteligência artificial) do jogo, prepare-se para frustrações. Ele vai tombar constantemente e, caso você não o “cure” a tempo, o jogo simplesmente retornará do último checkpoint.

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Expressões faciais de uma batata

Se a historinha de caixa de cereal de Inversion já é difícil de engolir por si só, que tal se nós disséssemos que há todo um conjunto de “batatas com olhos” para contá-la? Impossível se convencer com aquelas expressões — sempre de olhos arregalados e impassíveis, mesmo diante da morte de uma esposa, por exemplo.

vale a pena?

Inversion padece do mesmo mal de tantos outros jogos arquitetados como um suporte para uma mecânica/tecnologia supostamente inovadora. Basicamente, o que há aqui é algumas ideias genuinamente novas envolvendo a ação da gravidade... Tudo embalado por uma “inspiração” em Gears of War que beira o descaramento.

Quer dizer, pode ser realmente interessante e surpreendente experimentar trocas de perspectiva — chão que vira teto, teto que vira parede etc. —, e com certeza a ideia de alterar a gravidade ao bel prazer tem seu valor (embora não seja propriamente original).

O problema é que, se por um lado você não tem a liberdade que gostaria para moldar os cenários, de outro há mecânicas truncadas e um desfile inacreditável de clichês e superficialidades. É verdade que o modo multiplayer, embora desbalanceado, pode ser divertido... Mas há opções bem melhores por aí — sem sombra de dúvida.