Videoanálise

Embora nossa vida esteja sempre diante de nós, algumas respostas permanecem adormecidas e só podem ser encontradas quando fechamos nossos olhos. E, para chegar até elas, a solução é sonhar.

É a partir dessa proposta quase que poética que o caminho para a conclusão de uma saga tão inusitada tem início. Depois de vários títulos que pareciam servir apenas para complicar ainda mais a já complexa história, Kingdom Hearts 3D: Dream Drop Distance surge não apenas para dar início ao fim da saga que uniu Square Enix e Disney, como também mostrar que há um sentido em toda a bagunça apresentada até agora.

É claro que seu lançamento era cercado por muita expectativa e receio. A franquia sempre foi bem inconstante nos portáteis, trazendo dois excelentes títulos e outros dois que merecem ser esquecidos. Por isso, graças à importância que este novo capítulo carrega, era natural que os fãs estivessem temerosos com o que estava por vir.

No entanto, não há com o que se preocupar. Mesmo com alguns deslizes, Dream Drop Distance não tomba diante da responsabilidade e mostra que a pedra fundamental para a construção do vindouro Kingdom Hearts 3 é tão firme quanto todos desejavam.

aprovado

Uma missão, dois sonhos

Como os vários trailers já evidenciavam, a grande novidade de Kingdom Hearts 3D: Dream Drop Distance está exatamente no fato de você poder controlar Sora e Riku de maneira quase que simultânea. Embora essa não seja a primeira vez que os jogadores assumam a Keyblade do garoto de cabelos brancos, não será preciso concluir a campanha de um personagem para iniciar a de outro.

Img_normal

Isso é possível graças à proposta inicial do game, que coloca a dupla em uma espécie de teste que vai levá-los a mundos adormecidos. Assim, cada um deles visitará sonhos diferentes dos mesmos universos inspirados nos filmes Disney. Em tese, isso funciona quase como realidades paralelas, em que a ação de um herói não interfere na do outro, permitindo que você avance na narrativa sem encontrar paradoxos.

Porém, a maior diferença que isso traz está na jogabilidade. Embora compartilhem a mesma arma e algumas habilidades, Sora e Riku possuem estilos muito diferentes de combate. O primeiro é muito mais performático, com movimentos mais focados na agilidade do que na força. Seu companheiro, por outro lado, prioriza a potência de seus golpes, o que torna seus ataques muito mais intensos.

Img_normal

Essa separação fica muito mais clara nos chamados Links, golpes especiais que se originam quando você empresta a força dos Dream Eaters que o acompanham. Enquanto Sora age em conjunto com as criaturas, Riku se aproveita das características de cada um no movimento de sua Keyblade.

Vem que vem quicando

O mundo dos sonhos é repleto de possibilidades, envolvendo coisas que jamais aconteceriam na realidade — como quebrar as Leis da Física, por exemplo. Se você já teve um sonho assim, não vai ser difícil compreender o Flowmotion, o novo sistema de movimentação que estreia em Dream Drop Distance.

Com ele, você pode usar paredes e outras estruturas do cenário para ganhar impulso e disparar em alta velocidade pela tela. Em geral, esse recurso pode ser usado tanto para se deslocar de um ponto a outro em menos tempo quanto para alcançar plataformas de difícil acesso, já que ele também potencializa seus saltos.

Img_normal

É claro que, para utilizar esse novo elemento, é preciso dominar suas particularidades. Como a câmera nunca foi o forte de Kingdom Hearts, ela se torna uma inimiga na hora de controlar seu personagem nesses momentos. Assim, é preciso um pouco de prática antes de mergulhar pelos mapas.

No entanto, é no combate que a novidade se mostra mais eficiente. Ao entrar nesse modo, você pode usar um golpe especial que serve quase como uma finalização. Na prática, é quase como se os heróis caíssem do céu com uma Keyblade pronta para o ataque e para fazer os Nightmares desaparecerem.

O universo a seu favor

Lembra-se do filme “A Origem”? Ele introduziu o conceito de que o mundo criado em nossas mentes pode ser alterado de acordo com nossa vontade. Ainda que a obra não tenha menor relação com a Disney, a proposta acaba sendo utilizada em Dream Drop Distance na forma dos Reality Shifts.

Img_normal

Isso porque, assim como no longa-metragem, você pode usar o cenário a seu favor e transformá-lo em uma arma na batalha contra os Nightmares. O interessante é que cada mundo possui um funcionamento próprio, o que obriga o jogador a desenvolver estratégias diferentes de acordo com o sonho em questão.

No caso de The Grid, inspirado em “Tron: O Legado”, você pode simplesmente hackear inimigos ou elementos do próprio ambiente para usá-los a seu favor, gerando criaturas bomba ou fazendo com que os canhões disparem dinheiro em vez lasers. Já em Traverse Town, você pode simplesmente arremessar um oponente sobre os demais em uma espécie de estilingue.

reprovado

Um problema que vem no nome

A pior parte de Kingdom Hearts 3D: Dream Drop Distance vem estampado em seu título e responde pelo nome de Drop System. Em resumo, é a prova de que Tetsuya Nomura não tem amigos, pois, se tivesse, certamente alguém iria dizer que não é legal cortar a jogatina de alguém de repente.

Img_normal

Como dito, tudo aquilo que Sora e Riku encontram são, na verdade, sonhos dos mundos. No entanto, o que acontece quando alguém acorda? Pois é exatamente assim que o recurso funciona: em determinado momento de sua missão, você é obrigado a deixar aquela história de lado para conferir o que seu companheiro está fazendo.

Ok, a mecânica até faz sentido, já que a ideia é fazer com que você avance de maneira equivalente nas duas narrativas. No entanto, isso não justifica o fato de você ser simplesmente obrigado a realizar essa troca — incluindo em momentos pouco oportunos, como batalhas contra chefes. Sabe quando você está em um jogo online e a conexão simplesmente cai? Em tese, é isso.

O tempo de duração em cada sonho é indicado por uma barra no canto da tela, o que faz com que você tenha noção da duração de sua aventura, assim como é possível usar itens para estender sua permanência no local. No entanto, é totalmente incômodo você ter de abandonar uma habilidade importante para ter de carregar um item que serve para evitar um recurso estúpido.

Img_normal

O pior de tudo é que a troca entre um Drop e outro também serve para deixar o jogador ainda mais perdido. Por mais que Sora e Riku compartilhem os mesmos mundos, suas histórias e missões são diferentes, e a troca obrigatória só serve para você se confundir ainda mais. Então, não estranhe se você simplesmente retornar para um personagem sem se lembrar do que é preciso fazer ou para onde ir.

Se isso acontecer, xingue o Nomura.

Os devoradores de sonhos e alegrias

Não vamos entrar no mérito de que nada se compara ao carisma de Donald e Goofy como aliados. O grande problema dos Dream Eaters não é apenas esse, mas o fato de eles serem incrivelmente estúpidos.

Img_normal

Primeiramente, temos uma inteligência artificial quase inexistente que mais atrapalha do que ajuda. Prepare-se para ver seus aliados passeando por um canto totalmente aleatório do cenário ou pulando entre os inimigos enquanto você faz o trabalho sujo. E não estranhe caso eles comecem a empurrá-lo de plataformas quando você tentar realizar um salto mais ousado.

No entanto, não é apenas na IA que eles decepcionam. A execução da ideia falha miseravelmente por decisões sem sentido. A ideia de criar uma criatura para ajudá-lo é bem interessante e permite que você crie estratégias bem variadas, mas nada justifica você ter de adestrá-los com uma mecânica retirada diretamente de Nintendogs.

Para aproveitar melhor as habilidades de seus novos parceiros, você deve brincar com eles usando a touchscreen do 3DS. O problema é que isso é completamente bobo e não contribui em nada para a mecânica geral do game, servindo apenas para reforçar a ideia equivocada de que Kingdom Hearts é um jogo infantil.

Legado maldito

É praticamente impossível falar de Kingdom Hearts sem criticar sua câmera. Trata-se de um problema que se arrasta por mais de uma década e que, até agora, permanece sem solução. Com combates tão intensos e ágeis, é praticamente impossível se encontrar no meio de tantos efeitos e inimigos surgindo — o que faz com que você se perca com extrema facilidade.

Além disso, a utilização dos botões L e R não ajudam em nada nessa ingrata tarefa, já que você ficar muito limitado às rotações da tela. Por isso, o uso do Circle Pad Pro é altamente recomendado, embora não torne as coisas mais organizadas.

vale a pena?

Como dito, Dream Drop Distance consegue carregar a responsabilidade de manter o excelente desempenho de Birth by Sleep e dar início ao caminho que leva a Kingdom Hearts 3 sem decepcionar. É claro que os problemas irritam e fazem dele um jogo menos impactante do que os originais para PS2 ou seu antecessor no PSP. Porém, mesmo assim, ele se sai muito bem em sua tarefa de dar sentido à bagunçada cronologia da série e nos levar à sua tão esperada conclusão.

Para os fãs, é quase óbvio dizer que o game é um título obrigatório, mas ele se destaca por também ser acessível para quem nunca teve contanto com Keyblades, Heartless ou Nobodies. Ao longo de toda a trama, ele traz resumos dos jogos anteriores para tentar situar o jogador e explicar o que está acontecendo.

Isso, aliado a uma jogabilidade simples e frenética, faz de Dream Drop Distance sinônimo de entretenimento por muito tempo. Por mais que você ainda estranhe o fato de ver universos tão diferentes quanto Square Enix e Disney trabalhando em conjunto, deixe o preconceito de lado e descubra que a diversão pode estar a apenas um sonho de distância.