Com bugs corrigidos, Assassin's Creed é título obrigatório para os donos de PS3!

A Idade Média é uma das épocas mais poéticas da história. Passando uma borracha no modo de vida difícil das classes de base da sociedade, restam cavaleiros, príncipes e princesas, castelos e guerras entre reinos rechearam as histórias dessa época, formando contos muito envolventes.
As cruzadas medievais foram um momento crucial da história, definindo a cultura do mundo atual. Antes da Igreja Católica realizar sua peregrinação bélica com o objetivo de obter domínio sobre a chamada Terra Santa — a atual Palestina —, grande parte da Europa era dominada principalmente pelo islamismo.
Após os ataques cristãos, o povo islâmico perdeu a soberania e o catolicismo tornou-se a religião oficial em quase toda a Europa. Não fossem as cruzadas, o Ocidente de hoje teria uma cultura completamente diferenciada e quase que completamente baseada no Islão. Entretanto, as movimentações militares cristãs ocorridas durante a Idade Média mudaram o curso da história.
Os fãs desse tema provavelmente sintam falta de mais jogos no estilo, já que geralmente o único gênero com diversos títulos do estilo é o RPG, porém o clima fantasioso de monstros e magia tira grande parte do proveito dessas experiências. Assassin's Creed é um dos poucos — senão o único — a retratar de modo detalhado a cultura da época, apresentando um contexto histórico profundo.
Entretanto, Assassin's Creed conta essa história de maneira peculiar: sob os olhos de um árabe chamado Al-Taa-Ir ou Altaïr (águia voando, em árabe). Altaïr é um assassino de elite que trabalha de acordo com a filosofia da Ordem dos Assassinos, uma seita que realmente existiu e tem suas raízes no final do século XI. Seguindo um código de honra rígido que não permite o assassinato de inocentes ou o comprometimento da irmandade, além de exigir discrição máxima, Altaïr é enviado para aniquilar 9 homens, todos eles líderes importantes e que são peças-chave do plano católico. Sua missão é concluir todos os assassinatos sem deixar rastros de sua irmandade nos locais do crime.
Corra sorrateiramente pelos telhados de 4 cidades cruciais das cruzadas
A liberdade de ação e a jogabilidade de Assassin's Creed são o que mais chama atenção no título. Os gráficos consistentes e o enredo complexo são excepcionais, porém o que há de mais revolucionário no jogo é sua experiência incrível de interação com o cenário. As construções podem ser escaladas de diversas formas, dando muito mais autenticidade às fugas furtivas nas quais o personagem se esconde em pilhas de feno, esconderijos no telhado, em meio a monges e em bancos de praça.
Para encontrar o homem a ser assassinado, Altaïr deve percorrer a cidade em busca de pistas. Elas geralmente surgem no mapa quando o herói escala torres que lhe oferecem uma visão privilegiada de uma região da cidade. Dessa forma, é possível perceber as mais diversas formas de se adquirir informação. São informantes que servem à sua casta, pessoas conversando em praças, outros assassinos com maiores informações do alvo e até representantes públicos de seu alvo.
O personagem pode espancar os porta-vozes de seu alvo, roubar cartas e mapas com detalhes de operações que serão realizadas por ele, sentar-se em um banco e ouvir conversas de guardas e pessoas próximas ao líder e até ajudar informantes de sua ordem para conseguir maiores detalhes. Cada alvo conta com diversas formas diferentes de se recolher dados, cabendo ao jogador decidir quais são as mais importantes. Ao resgatar informações suficientes, Altaïr deve ir ao covil dos assassinos para receber autorização para o assassinato.
A forma de proceder durante o ataque também é completamente mutável. Escolher entre uma operação furtiva ou um ataque imprudente fica a critério do estilo do jogador, ainda que na maioria das missões seja mais sensato atacar silenciosamente. A magnitude de cada uma das quatro cidades representadas em Assassin's Creed contribui com esse fator, permitindo ao jogador percorrer uma área enorme e que aumenta muito o tempo de jogo.
Tudo isso pode ser realizado em quatro cenários diferentes: Acre, Jerusalém, Damasco e Masyaf. Esta última cidade abrigou o covil da Ordem dos Assassinos durante muitos anos. O nível de detalhamento das cidades é impressionante: as pessoas que trafegam na rua parecem ter personalidade própria, com maneiras de andar e roupas totalmente diferentes. Cada um dos distritos também tem características próprias, como a região pobre de Acre, que parece ter sido coberta por uma espécie de foligem escura. Enquanto o jogador passeia pelas ruas, cruza com mendigos, loucos e corpos mortos.
Missões alternativas
A linha principal da história de Assassin's Creed consiste em assassinar 9 alvos diferentes, três em cada cidade. Se o jogo não contasse com mais nada além disso, já seria cativante. Entretanto, para dar mais liberdade, existem certas missões alternativas, como coletar um número específico de bandeirolas em cada cidade, matar 60 templários escondidos pelo cenário ou salvar cidadãos da pressão injusta por parte dos guardas.
Dessas missões, as únicas que representam mudanças visíveis no jogo são os regates de cidadãos. Ao protegê-los, arranjando um boa briga com os guardas que os provocam, Altaïr ganha a sua confiança e admiração. Dessa forma, ao salvar homens, ele obtém acesso a grupos de monges, que o auxiliam na hora de se misturar à multidão. Salvando mulheres, um grupo de “vigilantes” — grandalhões cheios de massa muscular — aparece naquela região: sempre que seu personagem estiver em perseguição e passar por ali, os homenzarrões farão o possível para impedir a passagem dos guardas.
Combater templários pode não parecer tão emocionante à primeira vista, porém conforme o jogador evolui na história e começa a encontrar mais e mais templários pelas cidades e estradas, aniquilar os cavaleiros da ordem mais famosa da história torna-se um prazer. A resistência e as técnicas de combate desses cavaleiros são muito mais complexas que a dos guardas comuns, tornando os embates mais desafiadores e interessantes.
A Terra Santa amplamente reproduzida
O cenário de Assassin's Creed merece comentários à parte: além do incrível nível de detalhamento das texturas, iluminação e de sua física excepcional — comentadas com maior profundidade abaixo —, a amplitude do cenário é estonteante: percorrer as estradas entre uma cidade e outra chega a ser cansativo mesmo a cavalo (o que não tira do jogador a expressão boquiaberta devido à qualidade gráfica).
Entretanto, isso não pode ser considerado um problema de jogabilidade. Muito pelo contrário: após alguns bons minutos perdidos nas estradas que levam de Masyaf a Damascus (primeira e segunda cidades a aparecer no jogo, respectivamente), chega a recompensa: Altaïr passa por duas colunas gigantescas e adentra a parte externa de Damascus. É então que, montado no dorso de um alasão, o assassino contempla a muralha da imensa cidade à sua frente.
Para entrar na cidade, não basta passar impunemente pelos guardas. Estes notarão suas vestimentas pouco convencionais e proibirão sua passagem. Portanto, você deve optar entre entrar por cima dos guardas, esgueirando-se em vigas no alto do portão, ou escondido entre monges. Ao entrar em Damascus, a maioria dos jogadores arregala os olhos. A cidade parece viva: comerciantes gritam seus preços e vantagens, pessoas dos mais diversos escalões percorrem as ruas, guardas carregam um ar de maldade em seu rosto, enfim uma das melhores reproduções já vistas da Idade Medieval.
Cada uma das cidades é dividida em distritos — com excessão de Masyaf —, o distrito rico, o pobre e, ocasionalmente, o distrito central (middle district), sendo que a roupa dos personagens, a decoração das ruas e até os detalhes das contruções mudam de acordo os distritos, demonstrando claramente a variação na economia local.
Texturas e consistência gráfica de última geração
Desde as primeiras imagens e vídeos lançados para o título, Assassin's Creed já deixava os fanáticos por videogames vidrados em sua qualidade gráfica. A movimentação dos personagens, a variedade de vestimentas e modelos de pessoas circulando na cidade, tudo apontava para um dos títulos mais bem trabalhados do ano.
O resultado não decepcionou. Conforme era esperado, a movimentação de Altaïr nas ruas, empurrando gentilmente cada pedestre para abrir caminho na multidão é capaz de deixar até mesmo os mais críticos admirados, ainda que seus olhos analíticos encontrem certos defeitos com o corpo do personagem atravessando objetos.
A iluminação perfeita e a baixíssima redução na taxa de quadros por segundo, que não fica visível mesmo nas cenas mais complexas, põe os gráficos como um dos melhores que o Xbox 360 já viu. Infelizmente ocorrem alguns problemas com a modelagem, e muitas vezes evidencia-se que o corpo de Altaïr penetra alguma parte do cenário. Entretanto, isso não afeta o jogo em nada. As texturas também são impressionantes, e os efeitos do ANIMUS — você entenderá jogando — dão o toque final para Assassin's Creed contar com gráficos de tirar o fôlego.
Músicas temáticas na medida certa, mas só no PS3
O enredo de Assassin's Creed pede músicas de um tipo muito específico: não é suficiente qualquer música medieval, mas sim usar ritmos típicos da cultura do protagonista. Porém, A Ubisoft escolheu o melhor para cumprir essa missão: Jesper Kyd — um dos mais eminentes compositores do mercado de games — assina a trilha sonora do jogo.
O resultado não poderia ser melhor: o volume das músicas não afeta a falação da cidade, que é essencial para o clima medieval do título. Ao mesmo tempo, a sincronia entre a fala dos personagens e a movimentação da boca deles é muito agradável. Infelizmente o Xbox 360 não possui uma trilha sonora igual à do PS3, provavelmente devido à capacidade de armazenamento da mídia.
Futuro e passado mesclados num enredo surpreendente
Desde os primeiros trailers de Assassin's Creed, um mistério rondava a cabeça dos fãs de videogames: o jogo, que se passa durante as primeiras cruzadas, apresentava aaspectos futuristas em sua concepção gráfica, como brilhos azulados e marcações numéricas sobre os alvos. Entretanto, apesar de todo o mistério por parte da Ubisoft durante os meses que precederam o lançamento, logo na primeira cena do jogo, os jogadores conhecem os motivos que misturam futuro e passado.
A história não gira apenas em torno de Altaïr, mas também de Desmond Miles, um jovem de 25 anos (a mesma idade de Altaïr) que vive no presente. No início do jogo, Desmond acorda prisioneiro de dois cientistas. Um deles lhe explica sobre o ANIMUS, um sistema que é capaz de ler a memória genética presente no DNA humano, que liga a pessoa aos seus ancestrais.
Segundo o jogo, nosso DNA transmite as memórias de nossas experiências para nossos filhos e assim por diante. Desmond provém da linhagem de Altaïr, e por isso guarda em seu sangue toda a história do assassino que viveu num dos períodos mais conturbados da história.
A ligação entre futuro e passado foi trabalhada com perfeição e superou o medo que rondava os interessados no título, prendendo a atenção mesmo de quem guardava certos receios quanto ao enredo. O que poderia por tudo a perder só ampliou a qualidade da experiência.
Há grandes mudanças na história que comprometeriam a experiência se fossem contadas, mas fazem o enredo deste título tornar-se memorável. Além disso, o final deixa espaço para uma seqüência, que já está em produção. Segundo a Ubisoft, o jogo faz parte de uma trilogia e os enredos dos próximos títulos já estão prontos.
Com bugs corrigidos, o PS3 se mostra promissor
Assassin's Creed para PS3 mostra claramente que o jogo está muito equilibrado em ambas as plataformas. Na época do lançamento do jogo, críticas incisivas foram feitas à Ubisoft devido aos bugs na versão do PS3. Apesar de tanto as versões do Xbox 360 como do PS3 chegarem com falhas críticas que impediam a finalização do jogo, os donos de Xbox receberam a correção rapidamente, enquanto os usuários da Sony ficaram chupando o dedo por um bom tempo até que a correção definitiva chegasse.
Aventurar-se na Idade Média como um adversário às forças armadas cristãs não era para qualquer um. Muito mais fácil seria sujeitar-se a uma vida de miséria onde a maior parte de seus bens e produções eram encaminhados para a Igreja, como prova de sua fé em Deus. Entretanto, uma casta de espadachins não se deixou derrubar. A Ordem dos Assassinos durou quase trezentos anos (1090-1256), nos quais cometeu os mais diversos assassinatos com fins políticos.
Assassin's Creed coloca o jogador na pele de um desses nobres assassinos, que seguiam uma conduta de caráter rígida, permitindo eliminar apenas aqueles que interferissem em suas manobras políticas. O enredo envolvente, a jogabilidade sem falhas e os gráficos excepcionais dão a Assassin's Creed grandes chances de para competir pelo título de jogo do ano para 2007. Se você tem um Xbox 360, Assassin's Creed é um título obrigatório para sua coleção. O jogo revoluciona o mercado e dentro de alguns anos será lembrado como um dos grandes clássicos desta sétima geração de consoles caseiros.