Videoanálise A Naughty Dog é reconhecida por grandes franquias desde o tempo do primeiro PlayStation. Ganhando notoriedade com Crash Bandicoot, a companhia acabou se transformando na empresa de um game só, deixando o marsupial mascote para seguir com Jak e, mais tarde, com Uncharted. Justamente por essa ser uma das séries mais rentáveis do PS3, todos se surpreenderam quando a desenvolvedora anunciou que estava seguindo em frente e inventando um mundo completamente novo.

The Last of Us toma um tema que está em moda – o apocalipse viral – e o apresenta de forma completamente diferente. Apoiando-se na engine premiada dos games de Nathan Drake, mas pisando no mundo do Survival Horror, a história de Joel e Ellie mostra um mundo completamente devastado, onde é cada um por si, mas em que ainda há espaço para a humanidade.

Economia de recursos, furtividade, inteligência na montagem de equipamentos e compaixão – mas só na hora em que for preciso –serão suas armas no fim de mundo retratado no que já dá para considerar como um dos melhores jogos de 2013. Prepare seu coração e tente sobreviver!

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Muito mais do que um apocalipse

O filme “Eu Sou a Lenda” é a primeira imagem que vem à cabeça quando se observam imagens ou até mesmo a própria capa de The Last of Us. Mas, acredite, as semelhanças param por aqui. No game, não existe um Will Smith disposto a salvar o mundo, nem atos de heroísmo insanos que aparecem belos e imaculados na tela.

A cada passo que se dá em The Last of Us, temos a impressão que o fungo que extinguiu boa parte da humanidade não faz isso apenas literalmente, mas também figurativamente. Vive-se em uma época de repressão profunda. Matar não é mais um problema. Os mais fracos vivem escondidos e acuados, enquanto os mais fortes impõem sua supremacia pela violência.

E, na história, você não controla um herói, muito menos alguém nobre. Joel é um protagonista marcado pelo passado e que tem os interesses de seu grupo em primeiro lugar e não hesita em matar ou usar violência para conseguir o que quer. A relação dele com Ellie – uma pessoa igualmente deslocada –, porém, tem caráter transformador e é o principal fator de mudança do título.

Durante boa parte do game, você estará enfrentando, se esgueirando ou tentando evitar ser atacado pelos bons e velhos seres humanos, e não pelos monstros infectados. Muitas vezes, a ameaça das pessoas pode até mesmo ser mais perigosa que a das criaturas.

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Esse aspecto se estende também ao modo multiplayer, em que, obviamente, você está sempre controlando personagens humanos. Aqui, nada dos tiroteios insanos de jogos como Call of Duty ou jogadores correndo como loucos pela tela. A economia de recursos também dá o tom, apesar da furtividade nem sempre ser eficaz.

O fator “choque” do multiplayer vem pela violência. O enredo do modo é conectado à trama principal do game e faz questão de mostrar, o tempo todo, que você está apenas tentando sobreviver. Só que os outros também estão nessa função e, no mundo de The Last of Us, é cada um por si.

Prepare o coração

The Last of Us vai mexer com você, a não ser que você tenha uma alma peluda. Logo nos primeiros momentos da história, é como se o jogador fosse atingido por um furacão, alternando momentos de tensão extrema com outros em que você tem vontade de invadir o mundo do game e estender uma mão aos personagens.

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Essa corrente de emoções perdura ao longo de todo o título, mesmo quando Joel é mostrado já como um indivíduo endurecido por suas perdas. A jogabilidade no segmento pós-apocalíptico do título vai fazer você pular da cadeira, torcer para que algo de bom aconteça e andar nas pontas dos pés junto com os protagonistas que tentam evitar os ataques de humanos e criaturas infectadas.

A atenção aos detalhes aparece de forma sutil. Em momentos de calmaria, Ellie vai começar a assoprar. Segundo ela, está tentando aprender a assoviar. Em outros, durante a exploração de uma sala, por exemplo, será possível ouvi-la cantarolando alguma canção. São momentos de humanidade em meio ao caos.

Um dos principais pontos positivos de The Last of Us não está em aspectos técnicos, como os que aparecem nas notas aqui do BJ. É uma mistura da forma como a história é contada com os cenários incrivelmente bem construídos e, acima de tudo, uma imersão total no país devastado do título. É impossível não se colocar na pele dos personagens e sofrer com eles.

Esse envolvimento, unido aos aspectos de desumanização do subtítulo anterior, transforma The Last of Us em algo que é visto pouquíssimas vezes. Não é um game divertido. Muitas vezes, chega até mesmo a ultrapassar o caráter de “jogo”. É uma experiência, difícil até de resumir em palavras.

Existia vida aqui

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Se existe uma expressão que define o conjunto gráfico de The Last of Us, ela é “cuidado com os detalhes”. A quantidade de elementos que aparece ao mesmo tempo na tela, o nível de qualidade de coisas que normalmente passam despercebidas e a aparência geral do mundo do game passam perfeitamente a ideia de desolação e desespero do título, ao mesmo tempo em que mostram todo o potencial da Naughty Dog e do PlayStation 3.

Mas não se trata apenas de artigos espalhados pelo chão ou destroços. Dá para perceber que existe pensamento e atenção no posicionamento de cada um dos elementos, de forma a passar a impressão de que, antes da destruição, existia vida ali. Aqui, é a terra tomando conta do que antes era asfalto. Ali, os restos da residência de uma família feliz. São histórias que nunca saberemos dentro da história de Joel e Ellie.

Tudo isso aparece de forma esplendorosa em um dos melhores visuais já vistos no console da Sony. A qualidade da maioria das texturas é impressionante e o realismo é extremo. Existem, claro, imperfeições aqui e ali. Mas se a ideia de que jogos estão cada vez mais próximos de filmes é realmente verdadeira, The Last of Us é um testamento a ela .

Sem parar

A preocupação da Naughty Dog com realismo vai além dos aspectos técnicos ou narrativos do título. Elementos de “fora do game”, que poderiam contribuir para uma quebra na tensão ou um desprendimento do jogador, foram completamente excluídos. O título praticamente não possui momentos de parada para loading e todo o carregamento dos arquivos acontece de forma “invisível”.

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Existe uma única tela visível desse tipo, logo no início do jogo, e ela dura muito. Depois, caso você consiga a proeza de não morrer – e você merecerá uma medalha se obtiver sucesso –, poderá seguir até o final quase sem interrupções. Aqui e ali existem cortes para o início de cenas de corte, mas até mesmo elas, na maioria das vezes, aparecem de forma totalmente integrada à jogabilidade.

Você não vai largar o controle, nem mesmo para ouvir a história. E fique atento aos diálogos dos personagens, já que, mesmo durante as cenas de ação ou exploração, as conversas entre eles revelam pontos importantes da trama.

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Impecável? Não

O conjunto gráfico de The Last of Us é, sem dúvida alguma, um dos melhores da sétima geração de consoles. Mas não é perfeito. Enquanto o mundo que está a poucos metros dos protagonistas é rico em elementos e renderização, à distância, é possível perceber serrilhados, falhas gráficas e texturas mal acabadas.

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Em meio à cidade devastada e cheia de árvores e destroços, ali está um prédio que parece ter sido importado diretamente do primeiro PlayStation. Está vendo que maravilha aqueles raios de sol passando entre uma árvore toda serrilhada e quadradona? E que tal aquela explosão à distância que lançou polígonos nada tratados por todos os lados?

Tais falhas acontecem aqui e ali, mas de maneira alguma diminuem o trabalho feito pela Naughty Dog. É apenas que, em um título praticamente impecável graficamente, tais problemas assim tão gritantes chamam muito mais a atenção.

Jogatina BJ

Linearidade

O apocalipse aconteceu e as coisas desmoronaram e caíram por aí. Isso criou uma única maneira de seguir pelo mundo e você jamais poderá se locomover de qualquer outra forma. Pelo menos é isso o que mostra The Last of Us, que apresenta uma jogabilidade bastante linear, apesar de ter cenários grandes e com muito espaço para exploração.

O jogador é livre para agir como quiser nas cenas de combate, podendo ser furtivo ou agressivo. Mas, na hora de seguir de um local para outro, poderá fazê-lo de uma única maneira, apenas. Mesmo que, claramente, tenha uma plataforma ao alcance logo à frente ou o personagem seja plenamente capaz de acertar um pulo.

vale a pena?

Não existe jogo perfeito e impecável, mas The Last of Us é a prova de que as desenvolvedoras de jogos conseguem se aproximar muito disso. Todas as poucas falhas do game são compensadas por momentos impressionantes, visuais estonteantes ou uma história envolvente.

É um título que faz pensar e mexe com o jogador. Uma experiência que poucas vezes se viu em um video game. E que deixa a pergunta: quem, de verdade, acabou com a raça humana? A contaminação ou nós mesmos?

Jogo gentilmente cedido por SHOPB e JogoNovo